A concordância é uma das mais complexas áreas do estudo da linguagem, em que nem sempre ;é fácil estabelecer critérios rígidos e uniformes de correção. Talvez seja este o campo da sintaxe mais permeável à influências da expressividade do sentimento e do qual, por isso mesmo, a gramática normativa não conseguiu eliminar as variações e a liberdade de escolha
® Na verdade, aquele princípio geral que manda adaptar o vocábulo determinante às categorias gramaticais do determinado, isto é, à sua forma gramatical explícita, não é o único princípio orientador da concordância em Português.
® Essa forma pode deixar de ser imperiosa se:
a) A IDÉIA do vocábulo determinado ou subordinado nos impressionar mais que sua forma gramatical.
b) Houver mais de um determinado e apenas um deles for considerado para efeito de concordância, devido ao interesse que desperta em nós e à posição que ocupa na frase.
A gramática tem procurado disciplinar o sistema de concordância do Português. Se compararmos, por exemplo, a língua portuguesa culta de hoje com a do século XVI e XVII, vamos concluir que, na última, havia muito maior liberdade e ousadia.
Considerando o que explicou acima, podem-se estabelecer três tipos de concordâncias
1ª - A concordância lógica ou gramatical, que é a mais geral no português e consiste em adaptar o determinante ou subordinante à forma gramatical
do determinado, ou seja
a) o verbo ao núcleo (ou nucleos) do sujeito.
b) o adjetivo (ou palavras de natureza adjetiva) ao(s) substantivos(s) ou pronome(s) substantivo(s) determinado(s) ou subordinado(s).
Exemplo:
O povo deixou a praça.
Povo – substantivo coletivo / idéia de plural, mas forma de singular
Deixou a praça – 3ª pessoa do singular
Observa-se que, na concordância gramatical, quando se trata de determinados ou subordinados de gêneros diferentes, o masculino tem primazia sobre o feminino e o plural, sobre o singular
2º - A concordância atrativa, que consiste na adaptação do determinante ou subordinante.
a) Apenas um dos vários elementos determinados, escolhendo-se aquele que está mais proximo.
Exemplo:
Escolheste a hora e local adequado.
Local ® singular / adequado ® singular
b) A uma parte do termo determinado ou subordinado, que não constitui gramaticalmente seu núcleo.
Exemplo:
A maioria dos alunos saíram.
A maioria – singular
Alunos - pllural
Saíram - plural
c) A outro termo da oração que é determinado ou subordinado.
Exemplo:
Tudo são esperanças.
Tudo – sujeito singular
São – verbo no plural
Concordância com predicativo: esperanças
3º - A concordância ideológica, também chamada SILEPSE, segundo a qual se adapta o vocábulo subordinante ou determinante NÃO à fórmula do vocábulo determinado ou subordinado, mas ao seu SENTIDO:
Exemplo:
O povo, vendo sua figura magnífica, começaram a aplaudi- lo.
A SILEPSE, que pode ser de gênero, número ou pessoa, era muito comum no Português antigo, mas, na língua atual, tende a ser usada com maiores restrições. Alistamos abaixo alguns casos em que tal tipo de concordância ainda é usado com freqüência.
a) As expressões de tratamento (Vossa Excelência, Vossa Senhoria, Vossa Reverendíssima...) femininas pela forma, exigem no MASCULINO os adjetivos determinantes ou subordinantes, quando empregadas em relação a um homem.
Exemplo;
VOSSA EXCELÊNCIA mostro-se GENEROSO.
Silepse de gênero.
b) A expressão 'A GENTE' aplicada a uma ou mais pessoas, incluindo a que fala.
Exemplo;
A GENTE acaba acreditando em si PRÓPRIO
Silepse de gênero
'A GENTE DESSAS terras ANDAVAM nus.'
Silepse de número
c) Com um sujeito de terceira pessoa do plural pode-se usar um verbo na 1ª pessoa do plural, desde que a pessoa que fala se inclua entre os que participam da ação ou classificação expressa pelo verbo:
Exemplo
Os meninos somos muito desconfiados
d) ) Um sujeito constituído por coletivo ou palavra que traduza idéia de pluralidade PODE LEVAR o verbo para o plural, desde que se queira enfatizar a idéia de pluralidade e não a do conjunto. No Português atual, tal tipo de concordância ocorre geralmente quando o verbo se encontra afastado do sujeito coletivo:
Exemplo:
O POVO, gritando desesperadamente, CORRIAM em toda as direções
e) Quando se emprega os pronomes vós ou nós em referência a uma só pessoa, o adjetivo predicativo é usado, no primeiro caso (vós), sempre no singular, e no segundo (nós), no singular ou plural:
Ex.: Fostes injusto comigo.
" Nós ficaremos SATISFEITO com as críticas justas"
silepse de pessoa
Nós ficaremos SATISFEITOS com as críticas justas.
Silepse de pessoa